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domingo, 8 de setembro de 2019

Foragido


Caminhando sobre este deserto florido, com espinhos e plumas de algodão que disfarçam os roxos provocados em minha pele, sinto que já não me cabe aqui, sinto que os meus passos já não fazem sentido ao teu lado. Agora me sinto um foragido correndo contra vento, escondendo-me de ti, para longe de suas lembranças e suas pegadas.

Agora como que remoída em processamento, já não me causa os espinhos, as dores são minhas maiores companhia longe de ti. Caminhando sobre flancos espinhosos que sangram meus pés e fazem pegadas, marcam todos os passos permitindo que me encontres, um passo atrás de mim, um passo longe de mim, mirando descansar em algum lugar.

Agora sou apenas a poça vermelha que borra o chão de algodão.

Agora preciso correr dos teus olhos e lhe permitir ser feliz, longe de mim, deste borrão que me tornei em tua pele, em tua vida. Preciso lhe impor que sorria e não me tenha na tua angustia, na divisão de teus pensamentos, na dualidade de querer-me que machuca teu coração.

Preciso saber dizer adeus acreditando que seu melhor está no outro, longe de mim, longe dessa fumaça que perturba teu sono e porventura tem meu nome. Por ventura eu sei seguir em frente e reconhecer que não sou sua escolha melhor e sim o vício que luta deixar, mas está preso a nós ou te tornando presa em mim. Para agora sei que preciso partir, te livrar da dor que agarra a alma, te manter livre de mim.

Sigo como foragido procurando onde repousar, um lugar onde aninhar meus sonhos e meu olhar tristonho, um coração carente de amar e assim me reconstruir dessas marcas espinhosas, desse borrão ensanguentado. Como metamorfose, em dores me reconstruir e me ter inteira, para além de uma borboleta livre e colorida, um ser diferente, único e vivo.

Agora sou um foragido me afastando da sombra que tornei em ti, depois te tanto amor.

Partindo eu vou e sobre teu sono me despeço com um beijo na testa e ganho voo, com lágrimas nos olhos e sangue nos pés, refolgando toda a lembrança de um amor que foi lindo e intenso, que fora diferente de todos que vi, um amor que me despediu, dissipando levo-o agora para longe de toda memória, para que possas ser feliz.

Assim me despeço devolvendo sua face e dissipando toda dualidade que minha presença lhe causa, e amanhã nada mais que a parte branca em sua memória, sem nada, sem fumaça, sem vida, sem eu.

Sem nós,

Apenas um foragido.



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