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quarta-feira, 27 de maio de 2020

A gente sempre lembra o esquecido


A gente sempre lembra aquele doce preso no dente no meio da reunião, aquela pedra no sapato no meio de uma passeata com uma multidão eufórica. 

A gente sempre lembra... lembra de lembrar o que devíamos ou queríamos esquecer, lembra a dor da perda, do machucado que o levou ao hospital, da palavra “mal-dita”, do desapego, das covardias...

Fecho meus olhos e me vejo diante deste tribunal penoso, esse HD interno que me computa o que devia estar esquecido, talvez por pirraça ou um motivo maior que eu desconheça, vive expondo os erros e dores diante do telão, seja um quarto, uma sala vazia, um banheiro calmo ou mesmo nos sonhos vazios.  Acima de tudo e principalmente os machucados que aos curativos já não apresentam cura. Criou vicio e o amassado se expõe como rasuras.

O certo é que a gente sempre se lembra daquele pedaço doce que machuca os dentes, que sangra por dentro um coração que custa pulsar para manter equilíbrio uma casa sem morada.

Desta forma, a gente sempre lembra o que devia ter esquecido.

E tem sido isso, precisar lembrar de esquecer e assim, a gente sempre lembra o que precisa ser esquecido.

Quieta, deite-se e durma.

Te vejo entrar no banheiro, se arruma, põe seu batom vermelho, sua roupa bonita e sai como quem vai a um encontro.
Ah, garota, riu muito de ti, você me distrai as vistas com essa sua ilusão de liberdade, de ser. Onde pensa que vai, pequena iludida?
Tornei-te presa em meu castelo, me divirto ao ver-te toda produzida se olhando no espelho pelo reflexo desta garrafa que outrora me deliciou com seu vinho rosé. Sabe que está linda, mas ocultar-te estas palavras corta-te a alegria deste coração ferido.
Você é meu palco favorito, minha prisioneira. Eu fui a tua a escolha, te coloquei numa garrafa e me contemplo com teus olhos tristes e seus braços inúteis e imbecies que famintos me pedem colo. De mim, terá apenas o adubo suficiente para ter força teu caule. Preciso manter-te viva para alegrar meus dias, minha pequena garota.
Xiiii, não seja ingrata, te trouxe para mim e realizei seu desejo, ainda que assim, sou teu e estou aqui do outro lado a te encontrar quando sinto necessidade de saudar-te com meus olhos.
Por agora, feche os olhos e descanse, a rua está deserta e o barulho que ouve é apenas o meu celular com sonoro de pássaros que coloquei para que o seu despertar seja mais doce e leve... Então durma,
Durma,
Durma.

Sim, eu tenho medo sim


Tenho medo de me prender em um amor de plástico
De perder o pouco do brilho que gruda meu rosto
De ser abandonada pelo meu próprio sorriso
De que a menina que mora em mim faça suas malas e me deixe
Sim, tenho medo...
Tenho medo de me perder neste distanciamento e nunca mais me encontrar
Medo de já não estar sendo eu
Medo de quem estou virando
Dos sonhos que se transformam em tormentas
Dos olhos que não param de sangrar
Do coração que parece não bombear vida
Tenho medo de mim, sim
Tenho medo, medo dessa sombra que me sucumbe a cada dia e eu não dou conta.