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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

InLua

 

Ela sempre foi lua,

Ela sempre soube estar para quem a buscava.

Ela sempre foi nua,

Tão leve e nítida em sua majestade singular.

Ela sempre foi minha, minha lua.

Quando já não me cabem os pesos dos pés, fecho meus olhos e subo ao posto, do alto onde te observo e rendo a noite.

Alto, tão longe e tão perto me despeço.

Despeço das dores de ser humana mulher.

Daqui, onde me sinto em paz e sou pura, não preciso convencer a nada, daqui as minhas verdades me importam e me pertencem.

Daqui do outro lado, vou dizer adeus e ninguém vê.

...

Ei, amor, olha a lua...

E assim vou sendo romance de noite para casais, eu, a lua.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

REAJA

Ela parou de frente a mim, firmou seus olhos e disse: REAJA!

Eu levantei meus olhos sobre ti e a vi, linda, forte e cheia de pólvora. Firmei sobre seu olhar o meu olhar e vi a mim.

Um poço de dinamite que precisa explodir. Explodir parecia dores, mas também a saída que poderia clarear um poço escuro e aparentemente sem direção.

E ali fiquei, ali estou, diante desses olhos dores querendo explodir, soltar faíscas de arco-íris que compõe seu interior.

REAGIR!

Ela foi embora, ela que partiu e sem insistir me deixou vazio.

Eu que sempre a tive ao meu lado, que me acostumara com a sua companhia, me ceguei e dormi.

Ela partiu, como quem levanta numa madrugada silenciosa, se veste para trabalhar como em um dia normal, mas neste ela partira.

Ela saiu como o vento que toca a pele e a gente não o saúda, assim ela foi.

Ela que sempre foi meu lar, minha companhia, minha mulher e minha amiga, ela saiu.

O inverno chegou, inundou minha casa e neste momento percebi, percebi que a muito tempo ela partiu e me deixou aqui, de frente o espelho pensando se no próximo verão ela estará aqui ou se foi embora e eu demorei demais para descobrir.

Ela partir e eu fiquei aqui...

(sem)REAGIR! 

Pra não lembrar

Escrevi estas linhas pensando em você. 
Dizer que desejei te olhar na cara e arrancar essa casca dura que apodrece nessa acinzentada armadura barata que hoje eu vejo.
Desejei desfazer todo o caminho que me levou até você ou quem sabe refazê-lo para te olhar na cara e dizer NÃO, não farei parte da tua coleção, do teu joguinho.
Desejando não lembrar-me, mas arrancar-te de mim, escrevi estes versos e já nestas linhas não tenho mais vontade de continuar e aqui me rasgo, só para não ter que escrever e lembrar você.

--
*dédpourh

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Feito fogo e cera


Às vezes me pego perdida, desamparada em um mundo hostil e apertado, agarrando uma pequena mala onde carrego todos os que me pesaram os ombros durante minha vida.

Desejo livrar-me desse apego, desse vendaval que me alastro, onde meus sonhos me lançam ao chão e sapateiam em minhas costas com seus saltos.

Estes saltos finos e cruéis que cavam buracos ardentes e labaredas em meu sangue, borbulhando e queimando...

Desta maneira me derreto e a tudo ponho fim e me faço fim.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A gente sempre lembra o esquecido


A gente sempre lembra aquele doce preso no dente no meio da reunião, aquela pedra no sapato no meio de uma passeata com uma multidão eufórica. 

A gente sempre lembra... lembra de lembrar o que devíamos ou queríamos esquecer, lembra a dor da perda, do machucado que o levou ao hospital, da palavra “mal-dita”, do desapego, das covardias...

Fecho meus olhos e me vejo diante deste tribunal penoso, esse HD interno que me computa o que devia estar esquecido, talvez por pirraça ou um motivo maior que eu desconheça, vive expondo os erros e dores diante do telão, seja um quarto, uma sala vazia, um banheiro calmo ou mesmo nos sonhos vazios.  Acima de tudo e principalmente os machucados que aos curativos já não apresentam cura. Criou vicio e o amassado se expõe como rasuras.

O certo é que a gente sempre se lembra daquele pedaço doce que machuca os dentes, que sangra por dentro um coração que custa pulsar para manter equilíbrio uma casa sem morada.

Desta forma, a gente sempre lembra o que devia ter esquecido.

E tem sido isso, precisar lembrar de esquecer e assim, a gente sempre lembra o que precisa ser esquecido.

Quieta, deite-se e durma.

Te vejo entrar no banheiro, se arruma, põe seu batom vermelho, sua roupa bonita e sai como quem vai a um encontro.
Ah, garota, riu muito de ti, você me distrai as vistas com essa sua ilusão de liberdade, de ser. Onde pensa que vai, pequena iludida?
Tornei-te presa em meu castelo, me divirto ao ver-te toda produzida se olhando no espelho pelo reflexo desta garrafa que outrora me deliciou com seu vinho rosé. Sabe que está linda, mas ocultar-te estas palavras corta-te a alegria deste coração ferido.
Você é meu palco favorito, minha prisioneira. Eu fui a tua a escolha, te coloquei numa garrafa e me contemplo com teus olhos tristes e seus braços inúteis e imbecies que famintos me pedem colo. De mim, terá apenas o adubo suficiente para ter força teu caule. Preciso manter-te viva para alegrar meus dias, minha pequena garota.
Xiiii, não seja ingrata, te trouxe para mim e realizei seu desejo, ainda que assim, sou teu e estou aqui do outro lado a te encontrar quando sinto necessidade de saudar-te com meus olhos.
Por agora, feche os olhos e descanse, a rua está deserta e o barulho que ouve é apenas o meu celular com sonoro de pássaros que coloquei para que o seu despertar seja mais doce e leve... Então durma,
Durma,
Durma.

Sim, eu tenho medo sim


Tenho medo de me prender em um amor de plástico
De perder o pouco do brilho que gruda meu rosto
De ser abandonada pelo meu próprio sorriso
De que a menina que mora em mim faça suas malas e me deixe
Sim, tenho medo...
Tenho medo de me perder neste distanciamento e nunca mais me encontrar
Medo de já não estar sendo eu
Medo de quem estou virando
Dos sonhos que se transformam em tormentas
Dos olhos que não param de sangrar
Do coração que parece não bombear vida
Tenho medo de mim, sim
Tenho medo, medo dessa sombra que me sucumbe a cada dia e eu não dou conta.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Mausol(Eu)


Por que me chama para conversar, rir e passear se prefere andar do outro lado da rua separada por uma ponte condenada?
Por que me diz que posso confiar de olhos fechados se não tenho suas mãos para me guiar do lado de cá, por este caminho desconhecido que eu cega de nascença desconheço o colorido da vida?
Por que me oferece seus olhos para enxergar o brilho da vida se nem mesmo você pode ver?
Por quê? Quem dera eu acreditar que você ainda caminha comigo e todos podem atestar que não estou sozinha, mas é mais fácil e certo eu ler o som de apenas duas pegadas por este caminho sombrio e sem vida, ao toque do vento frio que me cerca e ri de minha desgraça. 
Infortuna minha acreditar que uma voz poderia ser real a me convidar para dançar na chuva e rir com os pássaros de mãos dadas com você, você que eu doentiamente recriei para não me sentir só, assim acreditar que poderia sair um pouco, respirar o ar dos vivos e por um instante me sentir um deles, a alguns palmos acima de mim.


MEU GRANDE AMOR


Eu te desenhei em uma folha branca e você de primeira pareceu meu arranjo perfeito, sem manchas ou rasuras, como quem te decora de um longo sonho de vida.
Decalcava cada pedaço seu que aninhava o meu, seu riso preso ao meu e seus olhos que me apertavam o peito e me esquentava do frio.
Não me faltou cores nesta paleta velha guardada em minha escrivaninha abandonada, de olhos fechados eu te sabia de cor, deitava meu rosto em seu peito e fazia ninho com suas mãos que me abraçava e me trazia segurança, o meu grande amor.
Ao que tudo me parecia perfeito, reluzia em meus olhos ainda fechados enquanto cobria cada detalhe do seu rosto que em meu sonho o via.
Como a passagem de um arco-íris em tempos de chuvas sobre casas de palhas, eu despertei ansiosa em te encontrar como tinha lhe deixado e me vi aqui, em um mundo desaguando sobre mim e eu afogando, morria em mim e desconhecia suas rasuras que se apagavam a cada novo risco e todo o trabalho de um pintor renomado desaparecia, permanecendo aquela tela branca e virgem.
Só os doentes para acreditar que podem viver um grande amor, mudar o destino da paixão... Mas que paixão?? Não, você não sabe o que é isto, não saberá o grande amor, está escrito  na palma de sua mão, não há amor em vida.
Torno a fechar meus olhos e me afogo enquanto me iludo que estou apenas dormindo e vivendo-o.